Sofrimento sem sentido: o que fazer quando não há explicação
Há sofrimentos que se encaixam numa história: o erro que ensinou uma lição, a perda que trouxe uma nova prioridade. E há sofrimentos que não se encaixam em nada. A morte de uma criança. A doença sem causa nem propósito visível. A dor que simplesmente não serve para nada que se consiga nomear.
Um livro inteiro sobre isto
A tradição bíblica tem, para este tipo de sofrimento, um livro dedicado: Eclesiastes. A palavra hebraica que dá título ao livro, Qohelet, significa algo como "aquele que reúne a assembleia" — um orador, não um filósofo de gabinete. E o que ele diz, repetidamente, é hevel: geralmente traduzido por "vaidade", mas que significa, literalmente, "vapor" ou "sopro" — algo que se dissipa antes de se conseguir agarrar.
Qohelet observa o mundo com honestidade brutal: pessoas boas sofrem sem razão aparente, pessoas más prosperam, o trabalho de uma vida pode desaparecer sem deixar rasto. E, ao contrário do que se poderia esperar de um texto religioso, não resolve isto com uma fórmula de sentido. Deixa a pergunta em aberto.
Porque é que isto é, na verdade, uma boa notícia
Parece estranho chamar "boa notícia" a um livro que se recusa a explicar o sofrimento. Mas há aqui algo valioso: Eclesiastes liberta-nos da obrigação de encontrar um sentido para tudo o que nos acontece. Nem toda a dor tem lição. Nem toda a perda tem propósito. E fingir que tem — obrigar uma tragédia a "servir para algo" — pode ser mais uma forma de violência do que de consolo.
O contraponto que a Bíblia oferece não é uma explicação melhor. É uma presença. É voltar a Job, que nunca recebe a resposta que pede, mas recebe algo que parece contar mais: não estar só. E é, mais tarde, a própria narrativa cristã da cruz — um Deus que não explica a dor a partir de fora, mas entra nela.
O que fazer, então, com o sofrimento sem sentido
Talvez a resposta mais honesta que os textos bíblicos dão não seja uma resposta, mas uma permissão: a permissão para admitir que algumas dores não têm explicação, sem que isso seja falta de fé. E a promessa de que a ausência de sentido não é o mesmo que a ausência de companhia.