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Porque sofremos? O que a Bíblia diz — e o que ela não diz

setembro de 2026 · Alice Amorim

"Porque é que isto está a acontecer comigo?" É provavelmente a pergunta mais feita a Deus — e a que menos resposta directa recebe. Não por acidente. A Bíblia trata do sofrimento em quase todos os seus livros, mas recusa-se, de forma quase sistemática, a dar-lhe uma causa única.

Três respostas erradas que a Bíblia rejeita

Antes de perguntar o que a Bíblia diz, vale a pena ver o que ela explicitamente recusa. O livro de Job existe, em larga medida, para desmontar a ideia de que sofrimento é sempre castigo por pecado — os «amigos» de Job defendem essa tese ao longo de três ciclos de discursos, e no fim são eles, não Job, que Deus corrige (Job 42:7). O Evangelho de João faz o mesmo movimento: perguntado se um homem nasceu cego por pecado seu ou dos pais, Jesus responde "nem ele pecou, nem os pais dele" (João 9:3). E o livro de Eclesiastes recusa a ideia de que o sofrimento seja sempre pedagógico, um "para tu aprenderes algo" — o autor observa, sem conforto nenhum, que "há um justo que perece na sua justiça, e há um ímpio que prolonga os seus dias na sua maldade" (Eclesiastes 7:15).

Três explicações fáceis — castigo, culpa hereditária, lição disfarçada — e as três são rejeitadas pelo próprio texto.

O que resta, então?

O que resta é mais difícil de aceitar do que qualquer uma das três: a Bíblia trata o sofrimento como parte da condição de viver num mundo que não está, ainda, como deveria estar. Paulo diz que a criação — ktísis — foi «sujeita à vaidade», e a palavra que ele usa para essa vaidade é mataiótes: não maldade, mas futilidade, um funcionamento que não chega ao fim para que foi feito. É isso que, segundo ele, «geme e sofre dores de parto» (Romanos 8:20-22). Repara na imagem: dores de parto não são dores de agonia. São dores que vão dar a alguma coisa. Não é uma explicação que resolve o problema; é uma recusa em fingir que ele está resolvido.

A diferença entre explicar e acompanhar

Isto é importante: a Bíblia raramente explica o sofrimento. Acompanha-o. O livro mais longo sobre o tema, Job, termina sem que Deus alguma vez diga a Job porque é que ele sofreu — Deus aparece, mas não justifica. O que muda, no fim, não é a informação que Job tem; é a presença que ele experimenta.

É esta a distinção que falta na maior parte das respostas prontas que se ouvem em contextos religiosos: confundir uma resposta teológica com uma presença. A tradição cristã central não resolve o sofrimento com uma fórmula. Resolve-o (ou começa a resolvê-lo) com um Deus que entra nele.

Então porque sofremos?

Honestamente: não há, nos textos, uma resposta única e fechada. Há, sim, uma direcção clara — o sofrimento não é, por defeito, um sinal de culpa, nem uma lição disfarçada, nem um acidente sem significado. É tratado como algo real, que precisa de ser levado a sério, e que não se resolve com clichês.

Continuamos este estudo nos próximos artigos, a olhar especificamente para o que a tradição cristã disse sobre a cruz como resposta ao sofrimento — e para os textos, muitas vezes mal traduzidos, sobre o "inferno".

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