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Deus permite o sofrimento? Uma resposta sem clichês prontos

setembro de 2026 · Alice Amorim

Há frases que se dizem tantas vezes em momentos de dor que se tornam quase automáticas: "tudo acontece por uma razão", "Deus não dá mais do que aguentamos", "isto é um teste". Nenhuma destas frases está, tal como é normalmente usada, sustentada de forma directa pelo texto bíblico. Vale a pena perceber porquê — e o que fica quando se afastam.

"Deus não dá mais do que aguentamos" — não é isto que o texto diz

Esta frase é uma paráfrase livre de 1 Coríntios 10:13, que na verdade fala de tentação — a atracção para pecar — e não de sofrimento em geral. Paulo promete que Deus não permitirá ser tentado além do que se pode suportar, oferecendo "uma saída". É um texto sobre resistir à tentação moral, não uma promessa genérica de que nenhuma dor ultrapassará a capacidade de alguém a aguentar. Aplicá-lo a qualquer tipo de sofrimento distorce o que o texto realmente afirma — e pode, na prática, fazer alguém sentir-se culpado por estar a sofrer mais do que "devia".

"Tudo acontece por uma razão" — Job diz o contrário

O livro de Job existe precisamente para desmontar a ideia de que todo o sofrimento tem uma causa moral identificável. Job sofre sem que o texto alguma vez lhe dê, ou dê ao leitor, uma razão satisfatória. A ideia de que "há sempre uma razão" para cada dor específica é mais próxima da filosofia estóica ou de certas correntes do pensamento popular do que dos textos bíblicos.

Então o que é que Deus permite, e porquê?

Aqui a honestidade teológica exige uma admissão: a Bíblia não resolve, de forma sistemática, o chamado "problema do mal" — a tensão entre um Deus bom e omnipotente e a existência do sofrimento. O que oferece, em vez de uma teoria, é uma narrativa: a de um Deus que, em Jesus, entra deliberadamente no sofrimento humano em vez de o explicar a partir de fora. Não é uma resposta que satisfaça a pergunta "porquê", mas é uma resposta à pergunta "onde está Deus quando isto acontece" — e essa pode ser, no fim, a pergunta mais urgente.

O que fazer com isto

Talvez o mais honesto seja resistir à frase pronta na próxima vez que alguém sofrer perto de nós — e oferecer, em vez disso, presença. Foi isso, no fim, que os amigos de Job fizeram bem, antes de estragarem tudo a falar: sentaram-se com ele, em silêncio, durante sete dias (Job 2:13). Só depois de começarem a explicar é que as coisas correram mal.

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